O paradoxo da tolerância aplicado à Engenharia

Em 1945 o filósofo Karl Popper definiu o Paradoxo da Tolerância no volume 1 do livro The Open Society and Its Enemies. Nas palavras de Popper:

A tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. 

Anotações de tolerância dimensional e geométrica. 

Embora o filósofo estivesse fazendo alusão à dinâmica em sociedade e despertando reflexões sobre a manifestação da intolerância, podemos pedir licença poética para criar um paralelo desse conceito com sistemas de engenharia que, assim como nós serem humanos, são complexos, apresentam características críticas e devem operar em concordância com outros sistemas. 

Montagem de um motor – sistema complexo de engenharia

Ao especificar a tolerância, o projetista exprime a faixa de variação aceitável para uma dada característica do produto. De outra maneira, a tolerância é o desvio admissível de um valor especificado ou de um padrão. Portanto, ao definir esse desvio permissível, o projetista deve buscar uma relação de compromisso entre a técnica e a economia, ou seja, uma especificação que exija menor custo de fabricação, mas que não comprometa a funcionalidade do produto. 

Essa não é uma tarefa simples e, encontrar um ponto de equilíbrio entre a técnica e a economia exige uma visão holística e transversal a respeito do ciclo de desenvolvimento do produto, envolvendo diferentes departamentos e atores, desde a etapa de projeto do produto até a fabricação, inspeção, montagem e testes.

Relação de compromisso para definição da tolerância ideal

No Brasil, alguns setores industriais ainda fazem uso de processos de fabricação convencionais e carecem de elevado nível de padronização, em que a qualidade final depende em grande parte das habilidades e do nível de capacitação do pessoal envolvido. Esses fatores fazem com que os produtos apresentem desvios significativos da qualidade.

Recentemente, durante uma visita técnica a uma fábrica, tive a oportunidade de interagir com alguns funcionários da empresa e, quando questionei um desses a respeito das tolerâncias que não apareciam no desenho técnico mecânico obtive como resposta:
Aqui nós não colocamos tolerância, pois fazemos tudo certinho.
Infelizmente, a adoção de práticas de projeto ultrapassadas faz com que parte dos profissionais não reconheça o papel da tolerância dimensional e geométrica e, com isso, não compreenda a necessidade de especificar melhor os seus produtos. 
No entanto, “fazer certinho” é fazer dentro de uma faixa permissível! 
De fato, a variação ocorre naturalmente e está presente em toda a cadeia produtiva. Essas variações não podem ser totalmente eliminadas, mas podem ser controladas dentro de intervalos (limites) aceitáveis.

Atualmente existem softwares dedicados a acomodar a variação por meio de análises estatísticas ou otimizações de tolerância usando as ferramentas de Computer Aided Engineering (CAE), isto é, engenharia assistida por computador. Esses softwares também são frequentemente denominados como ferramentas de Computer Aided Tolerancing (CAT), isto é, toleranciamento assistido por computador. A tolerância exerce um papel fundamental para assegurar a função e o desempenho do produto, trazendo benefícios para a qualidade e para o custo. Assim, os softwares (ou funcionalidade) CAT ajudam no diagnóstico de um denominador comum entre os interesses dos envolvidos com o projeto do produto, com a fabricação e até mesmo com a etapa de controle da qualidade.

Simulação de variações para auxiliar na especificação das tolerâncias dimensionais e geométricas para um produto.

Hoje, diante dos avanços computacionais, as ferramentas CAE e CAT disponíveis no mercado têm alta maturidade e são muito abrangentes em seus recursos de simulação. No entanto, mais importante do que a possibilidade de criar modelos sofisticados de simulação é atentar-se à importância de uma boa especificação da tolerância – isto é, um elo crítico entre o projeto, manufatura e qualidade, um ponto de encontro comum no qual requisitos concorrentes podem ser resolvidos.

Em suma, retornando ao conceito de Karl Popper:
“(...) em nome da tolerância, não devemos tolerar os intolerantes”.
Busquemos, portanto, meios de especificar melhor e de assegurar uma boa tolerância dimensional e geométrica para os produtos!

Alguns setores industriais ainda carecem dessa percepção. Mas, os novos rumos da indústria e sua crescente digitalização vêm despertando mudanças comportamentais e organizacionais.

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