Desde Domingo 2 de Outubro

Desde o último domingo, os números têm perturbado os meus pensamentos.

Por um lado, assistimos à validação de algumas previsões que – naturalmente – são estimativas, apresentam um erro permissível e tem um intervalo de confiança da média. 

Não quero entrar nos detalhes da bela Estatística e da ciência por trás da modelagem e experimentação. No entanto, para ser breve, dentro de um fluxo de dados, a previsão [o que vai acontecer?] é anterior a tomada de decisão [o que pode ser feito?]. Nessas eleições de 2022, a previsão serviu de entrada para a decisão de muitos eleitores, nos revelando uma tragédia já anunciada, na qual todos nós somos vítimas e, até certo ponto, culpados.

Nesta era dos dados, contribuímos para que as informações cruzem o espaço-tempo, chegando principalmente em nossos celulares, tablets e outros dispositivos móveis. Quase sempre sem filtro e credencial, mas, de súbito, tocam nas pessoas. 

O verbo é compartilhar. A ação nem sempre é nobre. 

O fato é que as informações migram. As pessoas se sentem autorizadas a enviar, sem nenhum compromisso com a coleta, investigação e análise, antes da distribuição. Pior, muitos se sentem habilitados a interpretar dados, algo que exige competência, materiais e métodos que dificilmente são adotados. 

De lá para cá, vem surgindo questionamentos a fim de deslegitimar a confiabilidade das urnas e institutos de pesquisa no Brasil. Nada disso faz sentido quando falta conhecimento a respeito dos fundamentos, dos princípios, da ciência, tecnologia e robustez por traz desse sistema.

Mesmo assim, confundem urna com intensão de voto com comportamento eleitoral com fraude com comunismo. 

Talvez possamos discutir um pouco a respeito do ocorrido... 

Na corrida presidencial, uma primeira explicação pode vir da migração natural de votos daqueles que, de última hora, foram impactados pelas previsões e, de um dia para o outro, fizeram suas trocas a fim de: (1) assegurar o segundo turno; ou (2) interromper um possível segundo turno. Matematicamente, faz sentido que ocorra uma maior distribuição de votos ao primeiro caso, favorecendo Bolsonaro na absorção dos votos úteis.

No entanto, há uma outra possibilidade, haja vista o perfil eleito para representar-nos nas câmaras dos deputados, no congresso e para ocupar os governos dos estados. Talvez, muitos daqueles eleitores que diziam-se desacreditados ou decepcionados com a política brasileira, quando diante de uma possibilidade real de reverter o cenário atual, fazem uso de um pensamento velado no conservadorismo e, por isso, tocam os botões para escolher Jair Messias Bolsonaro. Ato que provavelmente vem do medo, que vem do próprio medo que esses impostores –  fantasiados de progresso verde-amarelo – propagam na perspectiva de puxar para trás projetos urgentes para o Brasil plural, misto, tomado por culturas distintas e rico em identidades étnicas, raciais, religiosas.

Para os institutos de pesquisa, cabe a missão de criar modelos robustos capazes de prever o comportamento Brasil. O desafio é grande. 

Independente dos porquês, no fim temos um resultado que já não dá mais para reverter: uma vitória dos partidos conservadores, sustentados por uma retórica de ordem, liberdade e embrulhados no que dizem cristão

Triste, pois apenas buscam assegurar a vitalidade de um método ultrapassado que vem de um pensamento tipicamente machista, branco, colonial e capitalista. 

De fato, os números não mentem. Até confundem, mas jogam luz no que temos de pior em um país que resiste todos os dias. 

Não foi por falta de opção. 

E mesmo assim teremos nas cadeiras personalidades como a de um general que não manda, obedece e fracassa como gestor da pandemia; gente que joga no nome a patente que vem da força ou da igreja; um alucinado por boiadas que legitima a destruição do meio ambiente; Damares, que por si só ilustra a confusão de princípios; os senhores e esposa que queriam salvar o Brasil da corrupção sistêmica e nunca seria sobre política; o atual governador que era vice do governador afastado por corrupção, que escolheu um vice que foi afastado por garantir atuação de organização criminosa; um inelegível que ameaça o estado democrático de direito e recebe o perdão constitucional; aqueles que, quando impedidos de concorrer, usaram a compatibilidade de sobrenomes para eleger familiares tão despreparados quanto; não celebridades que buscam fama através do oportunismo; influenciadores mal intencionados; e até um palhaço, que parece menos grave, pois tem experiência de casa. 

A lista é grande. Sugiro consultar e se indignar.

O que nos resta, frente a uma tendência ultranacionalista e autoritária que assombra o mundo, é ponderar os argumentos e buscar soluções para combater retrocessos

Hoje, virar à esquerda é caminhar para frente

Há tempo que o meu pensamento é canhoto, mas não há nada que possamos fazer agora que não seja votar em Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno

Sim, eu vou votar 13.

Sim, eu vou votar no PT. 

Sim, eu vou votar para frente. 

Votar em Lula é escolher a retomada do crescimento econômico do país. É visar a redução da pobreza, atenuação das desigualdades sociais, distribuição de renda e inclusão social. Votar 13 é escolher emprego, oportunidades, saúde e segurança. É a preservação do bioma brasileiro e proteção do meio ambiente. Ir para a esquerda, é seguir o caminho da liberdade através da educação, do empoderamento feminino, da luta antirracista e contra a homofobia. É ser a favor da liberdade religiosa e da luta pela igualdade de direitos.

Não podemos aceitar que a legitimidade do auxílio emergencial seja colocada como palanque e moeda de troca para Bolsonaro em momentos de defesa de quem não tem um projeto para o Brasil. De fato, Bolsonaro não tem um projeto relevante, a não ser buscar meios de invalidar lutas, conquistas e direitos em um país massacrado por mazelas sociais. Bolsonaro é cheio de propostas vazias. Bolsonaro é o caos. Não podemos desmoronar em nome do Pix.

Neste momento, não temos um debate de propostas entre o melhor projeto para o progresso do Brasil. Temos Lula e Bolsonaro. Temos o mal nessa disputa que, infelizmente, se mostrou grande e forte o suficiente para continuar no poder.

Meu manifesto é que façamos bom uso da Estatística. O valor dos dados está na análise, na derivação de ideias e soluções. Portanto, vamos votar no segundo turno

Vamos votar pela democracia. Vamos votar 13. Vamos votar em Lula.

Comentários

  1. Excelente reflexão! Estatística sem análise crítica é um prato cheio para pessoas mal intencionadas. Vamos lá votar 13!

    ResponderExcluir
  2. Meu caro, BOLSONARO NÃO CRIOU O PIX. ELE É DE 2018. A máquina da. economia demorou a absorver a ideia, e só soltou durante esse governo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Prezada Tânia, agradeço a leitura. A proposta não foi apontar ou discutir autoria, mas que estejamos atentos para não desmoronarmos nos apoiando em pilares fracos. Obrigado mais uma vez!

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Quando o rio cruza a ponte (II)

O paradoxo da tolerância aplicado à Engenharia