Quando o rio cruza a ponte (I)

Quando o rio cruza a ponte

Parte I

Se Deus quiser quando eu voltar do mar
Um peixe bom eu vou trazer
Dorival Caymmi


Janeiro

Rio, 13/01/2022

Depois de tanto tempo, sinto como se estivesse saindo de casa pela primeira vez. 

Mas, desta vez com a angústia de tentar fingir intimidade com as despedidas. 

Desvio olhares. Falo pouco. Saio como se tão logo fosse retornar.

O momento não permite abraços e, muito menos, encontros que possam me fortalecer para o que tenho pela frente. Dói fingir normalidade.

Acordei, caminhei a dois, fiz o exame, cortei o cabelo, comprei o que faltava. Comemos um pastel de feira com caldo de cana. O dia passou, o embarque chegou. Deu a hora. 

Não aguentei. Abracei. Chorei. 

Mas ainda bem que hoje é quinta. A vida sempre me dá coisas boas nesses dias. 

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Padova, 14/01/2022

O cansaço me fez apagar e não senti o peso da longa viagem. 

Dormia. Acordava. A cada despertar, o frio na barriga e no corpo aumentava. 

Quis passar o tempo e ensaiar a minha chegada. Como ser eu em outro idioma? É como estar preso. 

Não sei quem me espera, mas que seja paciente. 

- Ciao, Thiago! Sou brasileira. 

Uma carioca de Bonsucesso. Se não fosse o frio, poderia dizer que fui recebido no Rio, com uma hospitalidade peculiar, que não pode faltar comida e história. 

A ansiedade diminuiu. Parece que o inacreditável aconteceu. 

Se não fosse pela Jéssica, alguns milagres não aconteceriam. 

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Padova, 15/01/2022

Não foi fácil dormir. Mas acordei sentindo um misto de sol com frio, que me fez abrir a janela e enxergar a bela pinheira. Pássaros cantam de longe. 

O sol parece mais esférico. Consigo descrever melhor a sua geometria. O amarelo tem traços de vermelho opaco. 

Ainda não posso sair. Este é apenas o segundo dia de quarentena. Fico aqui imaginando a cidade pelo som. Carros, motos. A ambulância tem uma sirene diferente. Ouço os badalos do sino da igreja. 

Já que não posso ir à cidade, deixo ela vir até mim. 

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Padova, 16/01/2022

Hoje foi dia de desfazer as malas e organizar a nova vida. 

Um domingo pensando na segunda-feira. 

É bom descobrir os cantos de um novo apartamento e imaginar como as pessoas moram, reúnem, organizam, guardam seus objetos e se protegem. 

Aquecedores, paredes espessas, fechaduras robustas e janelas bem vedadas. Tudo parece blindado da vida que circula lá fora. 

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Padova, 17/01/2022

Hoje também não foi fácil acordar. Num cansaço típico de segunda-feira, o dia começou com uma névoa densa e fria, obrigando o corpo a permanecer estático. 

Mas é segunda. Levanto e trabalho. Sinto o peso do idioma. Comecei a aprender italiano. Ciao. Come va? Buon lavoro. A presto. 

Preciso encontrar um apartamento. Monolocale. Não está fácil, pois a cidade está inchada. 

Não sei. Não posso sair. 

Sei que vou conseguir. 

L'Italia è lunga e stretta. 

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Padova, 18/01/2022

Dormi tarde, mas acordei cedo. Com esperança de que o dia seja produtivo. 

Comecei lendo o jornal: Il Mattino di Padova. Tentei. Não entendi muita coisa. Havia muito sobre Covid. Inclusive, "mi curo con limone e yoga". Parece que acordei no Brasil. 

Está frio. Estou na Itália. 

Hoje eu trabalhei. Respondi e-mails e procurei apartamentos para alugar. Não está fácil. 

Me arrisquei a sair. Fui jogar o lixo para fora. Provei um pouco do ar da cidade. Mas não posso. 

Noutro dia eu volto. 

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Padova, 19/01/2022

Não está fácil encontrar uma moradia permanente. Infelizmente, a limitação da língua desfavorece ainda mais. 

Entro em sites, envio mensagens. São poucos os que respondem. Respostas não animadoras. 

Meus prazos estão apertados. Minha ansiedade aumenta. O sono diminui. 

Mas sinto que vai dar certo. 

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Padova, 20/01/2022

Os dias aqui não têm sido fáceis. 

O frio parece aquecer a minha ansiedade. Preciso encontrar uma moradia. Preciso estar com a Jéssica. 

Infelizmente, vou dormir com incerteza. Provavelmente também acordarei com elas. 

Não quero duvidar das minhas escolhas. Ainda é cedo. 

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Padova, 21/01/2022

Hoje meu pai faz 60. 

Assisti aos seus aniversários à distância. Às vezes questiono tudo isso, mas no dia sempre há um motivo considerado razoável. 

É boa a sensação de "ainda" que o futuro nos oferece. Fiz escolhas e espero que o tempo ainda exista. 

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Padova, 22/01/2022

De dentro vejo um céu único. 

O sol cai e deixa rastros de amarelo com vermelho, que formam camadas no azul. 

O violeta faz lembrar que está frio. 

A luz atrai. Como um convite irrecusável para andar pelas ruas e sentir o movimento que vem do alto. 

Padova encanta. 

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Padova, 23/01/2022

Hoje completo o fim da quarentena. Amanhã eu posso sair, sentir no corpo e na barriga o frio da nova cidade. 

Minha bolsa está arrumada. A roupa está à vista. 

Há muito do que devo fazer a partir de agora. 

Vai dar certo!

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Padova, 24/01/2022

Saí no escuro. Sabia que no caminho  a luz do sol ocuparia a cidade. 

Vejo e sinto paisagens pela primeira vez. O frio parece desacelerar o vento. As folhas servem como um tapete úmido e opaco para o salto de alguns poucos pássaros. Cantam sem muito barulho. Estão em sintonia com o tempo.

Andei. 

Catei o jornal do chão. 

O que passa ontem, não mexeu em nada. 

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Padova, 25/01/2022

Estou consumido pela ansiedade vinda das incertezas. 

Minhas pernas chacoalham. 

Minha cabeça concorda e discorda em instantes de pensamentos que se cruzam. 

O corpo inquieto impede a concentração. 

É preciso força e coragem para enfrentar o novo. 

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Padova, 26/01/2022

Acordei com a sensação de primeiro emprego.

Fiz minha prece e continuei pela rua com o sorriso amarrado que vem da expectativa. 

Cortei pelo parque e pelo campus. Mas observo os detalhes dos movimentos. É cedo. 

O encontro acontece. Estou aqui e o pensamento vasculha o passado. 

Minha felicidade transborda. Fecho os olhos para ter picos de reflexão e questionar a existência do momento. 

Me sinto parte do time. Mas sei que este é um presente pouco provável. 

Estou feliz por viver isso. 

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Padova, 27/01/2022

Chegou o dia de dar entrada na autorização de residência. Permesso di soggiorno. 

Na Prefettura pude sentir um pouco do jeito italiano para burocracia. O dedilhar nos papeis demonstra a prática. 

Não entendo o que falam, mas suas palavras soam como briga. 

Fico perdido. Evito olhar para minimizar o risco. 

Em meio a isso, o Brasil parece chamar a atenção da funcionária: quando Lula fala, eu entendo tudo. Respondo com surpresa. 

A comunicação é um poder.

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Vicenza, 28/01/2022

Sigo em direção à estação acompanhado de uma névoa que resiste ao sol. 

Chego à Vicenza num dia de inverno ensolarado. Entro pela Universidade e me espanto com o novo em meio a tudo que parece tão antigo. 

Gosto desse ambiente. Pareço estar sendo bem acolhido. Sinto vontade de viver este momento. 

Assino o que chamam de contrato, após minutos fingindo a leitura, quando na verdade, agradecia em pensamento. Estou feliz por este momento. 

Mesmo sozinho, sinto a presença de muitos. Isso me fortalece. 

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Padova, 29/01/2022

O que me espanta é o silêncio pelas ruas. É como se as pessoas evitassem o que é brusco e repentino.

É possível sentir o som puro dos movimentos. Os corpos ocupam os seus devidos lugares. 

O vai e vem acontece como em um mecanismo que conhece os seus espaços no tempo. 

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Padova, 30/01/2022

A igreja acorda o domingo com o seu pendular que soa sereno. O dia precisa começar. 

O sol faz força para atravessar a janela. Faz pose com o seu brilho para que o frio não chame a atenção. 

O dia surge. 

As chaves balançam, as portas batem. 

O encontro é na rua. 

Acontece. 

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Padova, 31/01/2022

Surge a possibilidade de nos juntarmos pessoalmente. Há muito o que fazer, mas é bom imaginar que, a qualquer momento, estaremos de mãos dadas. 

As horas parecem guerrear entre o rápido e o lento, diante do que preciso produzir contra o tempo que resta para encontrá-la. 

Mas, sei que estamos juntos, ainda que na distância. 

Com amor, espero encontrá-la em breve. 

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Fevereiro

Rovigo, 01/02/2022

De fato, hoje é o primeiro dia.

Sei que já comecei, mas fevereiro acordou especial. 

Saí de casa com a prece de uma boa jornada. Tomei o trem e saltei em um lugar novo, desejando o melhor. 

Entrei e senti vontade de ficar. Sinto o sorriso vindo ao assistir ao mundo novo, colorido, moderno. Acredito nesta ciência. Tecnologia.

A empolgação toma conta. Gosto da energia que vem das pessoas. Há picos de descrença no momento. 

Acho que posso neste lugar. 

Desejo criar por aqui. 

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Padova, 02/02/2022

Pois no dia tomado por este número, surgem duas boas notícias. Teremos moradia permanente. Podemos viver na Itália como família. 

O dia vem balançando como as águas e traz mensagens que aceleram o coração. 

A inquietude é minha, mas parece que o vendo sabe o quando. 

É dia de agradecer. É dia de esperar. 

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Vicenza, 03/02/2022 

Seria impossível se a ajuda da Universidade. 

Sem o domínio da língua tento interpretar o corpo e entendo a complexidade da minha situação. O INPS não parece muito acolhedor. 

Vejo carimbos, muitas canetas e quase que o culto aos papeis. Sinto que entenderam o que faço aqui. 

Fui liberado. Não entendo o próximo passo. 

Fiz o que é preciso. 

Apenas desejo não me assustar com as taxas. 

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Padova, 04/02/2022

Me perco no tempo. 

Atravesso ruas e rios. 

Canso o pescoço nos movimentos que procuram conhecer a cidade.

Faço trocas entre esquerda e direita que apontam para cima. 

Nos pés sinto a massagem que vem das pedras desformes. No ar se misturam cafés e massas. O doce das galerias obriga uma pausa. 

Mas a cidade anda. 

Quero ir com Padova. 

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Padova, 05/02/2022

Não faz muito em que comecei por aqui, mas já vejo, sinto e pesa a quantidade de trabalho. 

Hoje forcei produzir. Há muito na próxima semana. 

O que mais me assusta continua sendo o idioma. Temo falhar a qualquer momento. Não é raro que meu coração palpite quando penso nisso. 

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Padova, 06/02/2022

Como a vida muda rápido. 

Me pego nas lembranças. 

Arrasto o tempo para trás e o presente me assusta. Faço contas no quando e a intensidade dos momentos parece aumentar a distância. 

Mas não. Foi logo ali. 

Passou. Aconteceu. Vivemos. 

Para o agora, ficará isso. 

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Padova, 07/02/2022

Passo o dia com as telas. A mensagem, a construção, o resultado, a expressão. As relações. Equações. Tudo vem dali. 

À frente. Nas mãos. A distância. Há uma proximidade que se esconde no longe. 

Pareço visto por dentro e por fora. Cada detalhe importa. Em mim e no outro. 

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Padova, 08/02/2022 

A posição que ocupo tem o doce de futuro, mas o retrogosto da responsabilidade. 

Não está um dia confortável. 

Minhas lembranças vão a lugares de um ou dois anos. Lembro bem. Volto, fico e estou. 

Escolhi estar aqui, pois fui escolhido. Isso me assusta e pesa. 

O dia cheio bagunça a cabeça. 

Erro algumas coisas. Me incomodo com o desconforto do erro. 

Quero apenas ser eu. Aqui. 

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Padova, 09/02/2022

Eu imaginei que seria difícil, mas não sabia que poderia ser tão desgastante. 

Lamento que esteja começando desta forma. Inclusive, me assusta. 

Mas, entendo. 

Este é o caminho. 

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Padova, 10/02/2022

Retorno ao iCT no mesmo lugar em que estive há três anos. 

De lá pra cá o mundo mudou muito. Eu também. 

O sentimento é surpresa boa. Com um pouco de fragilidade, por reconhecer que enxergamos pouco do que vem pela frente. 

Não imaginava isso. Não esperava por este presente. 

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Padova, 11/02/2022 

Mais um dia aguardando por um endereço definitivo. Mais terei que esperar. 

Isso provoca a ansiedade. Estimula a pressa. Perturba e confunde outras pendências. 

Infelizmente não há muito o que fazer. Preciso esperar. 

Mas não tenho muito tempo. 

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Padova, 12/02/2022

Ando tentando acalmar a expectativa. 

Saio sem um destino claro, mas a cada rua visualizo a próxima parada. 

Meus dias estão sendo consumidos pelo talvez. As incertezas perpassam e assombram os momentos em que preciso de mim por inteiro. 

A concentração foge. Tudo parece confuso. Me resta esperar. 

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Padova, 13/02/2022

O ar gelado entra pelo nariz  e treme o corpo. Provoca as pálpebras no confuso entre buscar o todo e fechar para escutar. 

A vista é encantadora. O som é pela quietude. 

O chão de terra nos faz subir. O verde destoa das pedras, que parecem combinar com as árvores nuas, querendo aproveitar a beleza quando não há flores. 

Daqui o céu é mais perto. 

Aqui é sentir. 

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Padova, 14/02/2022

Vivo momentos de insegurança, em que já desconhecia pela idade. 

Não tem sido fácil. A cada instante, pareço mais confuso. 

A semana começa. Segunda-feira me faz mal. E bem. 

Desejo que a semana passe. Que as entregas aconteçam. 

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Padova, 15/02/2022

Tento escrever o relatório. 

Reviro. Vasculho. Troco. Adio. 

Não consigo me concentrar no doutorado. Tudo ainda é caótico. 

Isso afeta  o meu desempenho. 

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Padova, 16/02/2022

Parece justo que numa quarta-feira aconteça. Espero pela notícia que atrasa. E atrapalha. Tudo.

Entro pelo campus e penso no que preciso para estar aqui. Preciso da minha mente saudável. 

Não falo muito. Do contrário, penso. Pensar cansa. 

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Padova, 17/02/2022

Boas notícias geralmente são às quintas. 

O ombro descansa. O corpo relaxa provoca o sorriso. 

Demora muito tempo para que, de uma hora para outra, aconteça o alívio. 

Feliz. Sentindo o alegre que chama por compartilhar. 

Vejo o sorriso dela. Vem o choro bom. Podemos nos reunir em breve. 

Temos um lar!

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Padova, 18/02/2022

O dia passa entre as lojas que marcam o estrangeirismo. Estou em Padova, compro no China. É comum. Os nativos que indicam. 

Vou pelo preço. Os locais também. 

O consumo parece escalar a venda dos chineses. Que soam como italianos. 

Formadores de uma cultura. São parte da cidade. 

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Padova, 19/02/2022

Desperto pela primeira vez onde terei como lar. 

Lamento a noite mal dormida. Há um turbilhão acontecendo. 

Sobretudo, sou grato por conseguir, ter e estar. 

Há dificuldade, porque existe. Há medo, porque é grande. 

Penso no todo. Assusta. 

Tenho força. 

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Padova, 20/02/2022

Acordei com a insatisfação do difícil. Durmo com o alívio da possibilidade. 

Vejo no olhar da pele branca a análise vertical pelo meu corpo. Pareço incomodá-los. 

Não sei se é a língua. O mais provável vem da cor. 

Mas deparei com um semelhante. Mesmo sem a língua, nos entendemos.

Consegui ajuda. Veio da pele preta. 

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Padova, 21/02/2022

Começo a sentir um dia mais leve. 

Amanhece. Vejo a chuva mansa se misturando ao marrom das árvores nuas. 

O sol tenta um espaço. Por alguns momentos, consegue. Logo o frio da neblina toma conta. 

Mas o céu é azul. Celeste e com manchas de nuvens que desfilam como a chuva

A mensagem vem das águas. 

Ela limpa e clareia. 

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Padova, 22/02/2022

O dia começa de traz para frente, quando percebo o encanto dos números, que são inimigos das coincidências.

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Padova, 23/02/2022

A guerra parece começar entre Rússia e Ucrânia. A Europa e o mundo opinam. 

Mas a barbearia continua veiculando, analisando, discutindo, provocando, confabulando, prevendo e movimento qualquer assunto. 

Há uma regra universal para isso. Quem entra e sai é responsável pela manutenção dos capítulos, que seguem conectados e referenciados. 

Cortar o cabelo é manter-se informado. 

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Padova, 24/02/2022

O cartório empurra no tempo. Que é distante e para trás.

Os balcões. Carimbos. Há disputa por senhas. Tensão entre os que transitam, sem saber os seus devidos lugares. 

Quem casa, encontra quem separa. Quem nasceu, esperou pela vez de quem morreu. 

Quem mora, quem vende, o que abre. 

Haja assinatura. 

Que semelhança com o Brasil. 

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Padova, 25/02/2022

A chuva cai com a força do de repente.

Escondida. Quase atropela os que não têm sorte. Ou molha os próximos alegres. 

Cai com força. 

Pesa nas ruas, nas sacadas e nos telhados. 

Cria um córrego rápido pelo asfalto. Limpa, move e renova.  

Esfria. Acalma. Reduz. 

Vai. 

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Padova, 26/02/2022

Como é difícil associar o descompasso entre o pensamento e a escrita, quando oscilam entre idiomas. 

Vem junto o medo de não alcançar. Também o pavor do todo, daquilo que vem pela frente. 

Mas é assim. Escrever dói. 

No fim, o texto alivia. 

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Padova, 27/02/2022

O ruído ao fundo acalma. 

O som chega. Manso. Pois se aproxima com o tempo. 

Não é chuva, não é bicho. 

Só parece distante, mas perto o suficiente para ser presente. Não incomoda. Só mexe com o pensamento. 

Vem e vai. 

Algum lugar recebe. 

Do trilho que comunica o chão e o ar. Uma máquina pesada que organiza o movimento. 

Quero sentir o próximo. Não será o mesmo. 

Mas mexe. Organiza. Leva. 

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Rovigo, 28/02/2022

A segunda corda como as outras. Logo esta, a única que não é. 

Pois é Carnaval. 

Que não é. Ou é. Mas não deveria. E não fazem festa.

O laboratório. A máquina liga e, pela primeira vez, vejo o raio daqui atravessando a peça. 

O trabalho segue norma. As lojas, o mercado, o trem. 

É segunda. Não é Carnaval.

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